Basta uma busca rápida na internet para encontrar uma infinidade de produtos que prometem aumentar a libido feminina. Chás, suplementos, vitaminas, ervas, fórmulas naturais e medicamentos aparecem como possíveis soluções para recuperar o desejo sexual.
Mas, entre tantas promessas, o que realmente tem comprovação científica?
Hoje vim falar justamente sobre isso. Com dados, evidências e sem promessas milagrosas!
Existem duas substâncias desenvolvidas especificamente para o tratamento do baixo desejo sexual feminino que passaram por pesquisas clínicas: a flibanserina (Addyi) e a bremelanotida (Vyleesi).
Ambas foram aprovadas nos Estados Unidos para o tratamento de uma condição específica, chamada transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD).
Vamos conhecer esses medicamentos, entender como funcionam e examinar o que as pesquisas científicas mostram sobre sua eficácia, segurança e limitações.
Medicamentos desenvolvidos para o HSDD
Embora essas duas substâncias tenham sido desenvolvidas para o tratamento do HSDD, elas são bastante diferentes.
HSDD é a sigla em inglês para “Hypoactive Sexual Desire Disorder”, traduzido como transtorno do desejo sexual hipoativo.
Essa condição é caracterizada pela diminuição ou ausência persistente do desejo sexual, acompanhada de sofrimento significativo para a própria mulher.
É importante fazer essa distinção porque ter pouca vontade de fazer sexo não significa, necessariamente, ter um transtorno. A frequência do desejo varia entre as pessoas e pode mudar ao longo da vida, sem que isso represente um problema clínico.
Para avaliar a presença do HSDD, é necessário considerar a história da mulher, como a mudança aconteceu, há quanto tempo persiste e o quanto ela a incomoda. Também devem ser investigados possíveis fatores associados, como alterações hormonais, medicamentos, dor durante o sexo, estresse e questões emocionais ou relacionais.
Os medicamentos estudados para o HSDD foram desenvolvidos para uma condição clínica específica, e não para aumentar indiscriminadamente a libido de qualquer mulher.
Flibanserina (Addyi)
A flibanserina é um medicamento oral, administrado diariamente, na dose de 100 mg, à noite.
Sua ação envolve sistemas de neurotransmissores relacionados à regulação do desejo sexual. O mecanismo exato pelo qual produz seus efeitos, entretanto, ainda não é completamente compreendido.
Como é um medicamento de uso contínuo, os resultados não são imediatos. A melhora, quando ocorre, costuma ser percebida ao longo das primeiras semanas de tratamento.
Nos Estados Unidos, a flibanserina foi inicialmente aprovada para mulheres na pré-menopausa. Em dezembro de 2025, a FDA ampliou sua indicação para mulheres com menos de 65 anos que apresentam HSDD adquirido e generalizado.
Isso significa que a diminuição do desejo surgiu após um período em que ele existia e não está restrita a uma situação, parceiro ou tipo específico de atividade sexual.
Bremelanotida (Vyleesi)
A bremelanotida é administrada por injeção subcutânea, geralmente no abdômen ou na coxa, aproximadamente 45 minutos antes da atividade sexual prevista.
Diferentemente da flibanserina, é utilizada sob demanda, respeitando os limites de frequência estabelecidos na bula.
A substância atua em receptores de melanocortina no sistema nervoso central, envolvidos em diferentes processos fisiológicos, incluindo mecanismos relacionados à resposta sexual.
Sua aprovação nos Estados Unidos é destinada a mulheres na pré-menopausa com HSDD adquirido e generalizado.
A bremelanotida também apresenta restrições importantes, especialmente para mulheres com hipertensão não controlada ou determinadas doenças cardiovasculares, devido à possibilidade de aumento transitório da pressão arterial.
Os resultados encontrados nas pesquisas clínicas
Os estudos com flibanserina e bremelanotida demonstraram melhora em determinadas medidas de desejo sexual quando comparadas ao placebo.
Entretanto, a magnitude dessa diferença merece atenção.
Flibanserina
Nos estudos clínicos, aproximadamente 34% das mulheres que receberam flibanserina apresentaram uma resposta considerada significativa, em comparação com cerca de 26% das participantes que receberam placebo.
A diferença entre os grupos foi, portanto, de aproximadamente oito pontos percentuais.
Uma meta-análise publicada em 2024, reunindo oito ensaios clínicos randomizados e 7.906 mulheres, também identificou resultados favoráveis à flibanserina em medidas relacionadas ao desejo sexual, à função sexual e ao sofrimento associado à baixa libido.
Ainda assim, o benefício médio adicional foi pequeno em algumas medidas. Em uma das análises, por exemplo, a diferença em relação ao placebo foi de aproximadamente 0,69 evento sexual satisfatório por mês.
Esse resultado não deve ser interpretado como uma previsão individual, já que algumas mulheres podem perceber benefícios maiores, enquanto outras não apresentam melhora relevante.
Também é importante considerar que a frequência das relações sexuais, isoladamente, não representa toda a experiência do desejo.
Bremelanotida
Nos estudos clínicos de fase 3, aproximadamente 24,5% das mulheres tratadas com bremelanotida apresentaram uma melhora considerada significativa no desejo sexual, contra cerca de 17% no grupo placebo.
A diferença foi de aproximadamente 7,5 pontos percentuais.
Também houve redução do sofrimento relacionado ao baixo desejo. Entretanto, a bremelanotida não demonstrou melhora estatisticamente significativa em todos os aspectos da função sexual avaliados, incluindo o número de eventos sexuais satisfatórios.
Isso mostra que a melhora do desejo, conforme medida nos estudos, não necessariamente se traduz em mudanças equivalentes em outras dimensões da experiência sexual.
Vale lembrar que os percentuais apresentados para os dois medicamentos vêm de estudos diferentes, com instrumentos e critérios próprios. Portanto, não permitem estabelecer uma comparação direta de eficácia entre eles.
O papel do placebo nos estudos sobre desejo sexual
Um aspecto que chama a atenção nessas pesquisas é a proporção de mulheres que apresentaram melhora mesmo recebendo placebo, uma substância sem o princípio ativo investigado.
A resposta ao placebo é um fenômeno conhecido na pesquisa clínica e não significa que os sintomas sejam imaginários.
Expectativas em relação ao tratamento, acompanhamento durante o estudo, atenção dedicada à própria sexualidade e mudanças na percepção das experiências podem influenciar os resultados.
No caso do desejo sexual, essa observação é especialmente interessante, já que a sexualidade é influenciada por fatores que ultrapassam os processos biológicos.
O efeito de um medicamento é avaliado considerando a diferença entre os resultados obtidos pelo grupo tratado e pelo grupo placebo.
Nos estudos sobre flibanserina e bremelanotida, essa diferença existe, mas é relativamente pequena em média.
Isso ajuda a dimensionar o benefício que pode ser esperado do tratamento e reforça a importância de uma decisão individualizada.
Efeitos colaterais e limitações do tratamento
Os efeitos adversos também precisam ser considerados na avaliação desses medicamentos, especialmente diante de benefícios que, em média, são modestos.
Flibanserina
Entre os efeitos colaterais registrados nos estudos clínicos e descritos na bula norte-americana, estão:
- Tontura: aproximadamente 11,4%.
- Sonolência: aproximadamente 11,2%.
- Náusea: aproximadamente 10,4%.
- Fadiga: aproximadamente 9,2%.
Cerca de 13% das participantes interromperam o tratamento devido a efeitos adversos.
A flibanserina também apresenta interações medicamentosas relevantes e exige cuidados relacionados ao consumo de álcool, especialmente pelo risco de sonolência, sedação e hipotensão.
Por isso, seu uso deve respeitar as orientações médicas e as recomendações específicas da bula.
Bremelanotida
Na bremelanotida, a náusea é um dos efeitos adversos mais frequentes, relatada por aproximadamente 40% das participantes.
Cerca de 13% precisaram utilizar algum medicamento para controlar esse sintoma.
Também foram observados rubor, reações no local da aplicação, dor de cabeça e vômitos.
A substância pode provocar aumento transitório da pressão arterial e, com o uso repetido, alterações na pigmentação da pele.
Esses dados mostram que os efeitos colaterais não são necessariamente raros ou irrelevantes. A intensidade e o impacto variam entre as mulheres, assim como a resposta ao tratamento.
Para algumas, a melhora percebida no desejo pode compensar os possíveis desconfortos. Para outras, o benefício pode não justificar os efeitos adversos.
Essa avaliação deve considerar as condições de saúde, as expectativas e as prioridades de cada mulher.
A baixa libido precisa ser compreendida dentro da história de cada mulher
O desejo sexual não funciona de maneira isolada. Ele é influenciado por fatores biológicos, psicológicos, sexuais, relacionais e contextuais, que podem se combinar de diferentes formas ao longo da vida.
Alterações hormonais, medicamentos, dor durante a relação sexual, cansaço, estresse e dificuldades no relacionamento são alguns dos fatores que podem contribuir para a diminuição do desejo.
A forma como a mulher vivencia a própria sexualidade também faz parte dessa avaliação.
Em determinadas situações, o desejo pode diminuir porque as experiências sexuais deixaram de ser prazerosas, porque existe desconforto físico ou porque o sexo passou a ser vivido como uma obrigação.
Por isso, a investigação precisa considerar a história individual e as circunstâncias em que essa mudança aconteceu.
Identificar os fatores envolvidos permite pensar em abordagens mais adequadas, sem tratar toda diminuição do desejo como se tivesse a mesma origem.
Terapia sexual e outras possibilidades de tratamento
Os medicamentos representam uma das possibilidades de tratamento do HSDD, mas existem outras intervenções com respaldo científico.
O consenso da 5ª Consulta Internacional sobre Medicina Sexual, publicado em 2026, reconhece evidências favoráveis para intervenções psicológicas, incluindo terapia sexual, terapia cognitivo-comportamental (TCC) e abordagens baseadas em mindfulness.
Essas intervenções podem contribuir para a compreensão das dificuldades sexuais, a redução do sofrimento associado à baixa libido e o desenvolvimento de novas formas de vivenciar a sexualidade.
Dependendo das necessidades da mulher, o processo terapêutico pode envolver educação sexual, autoconhecimento, atenção às sensações corporais, comunicação no relacionamento e identificação de fatores que interferem na experiência sexual.
A terapia sexual também oferece espaço para trabalhar aspectos que não são resolvidos diretamente pela ação de um medicamento, como dificuldades de intimidade, experiências sexuais insatisfatórias e padrões que contribuem para o distanciamento do próprio desejo.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026, que reuniu 36 estudos sobre tratamentos para o HSDD, encontrou resultados favoráveis tanto para intervenções psicológicas baseadas em mindfulness quanto para flibanserina e bremelanotida em diferentes medidas de função sexual e sofrimento.
Entretanto, os estudos apresentaram diferenças metodológicas importantes e não incluíram comparações diretas suficientes entre as intervenções psicológicas e farmacológicas.
Assim, a escolha do tratamento deve considerar as características de cada caso, podendo envolver uma abordagem específica ou a combinação de diferentes recursos.
Em algumas situações, também será necessário tratar condições físicas, alterações hormonais, dor sexual ou rever medicamentos que possam estar interferindo no desejo.
Disponibilidade dos medicamentos no Brasil
Embora a flibanserina e a bremelanotida tenham aprovação da FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, até outubro de 2026 não foi identificado registro sanitário desses medicamentos na Anvisa para comercialização regular no Brasil.
A aprovação em outro país não representa autorização automática para comercialização no mercado brasileiro.
Como a situação regulatória pode mudar, a consulta à base oficial de medicamentos registrados da Anvisa é a forma adequada de verificar possíveis atualizações.
Antes de procurar um remédio para a libido, leia isto
Existem medicamentos desenvolvidos para tratar uma condição específica relacionada ao baixo desejo sexual feminino, e as pesquisas mostram que eles podem ajudar algumas mulheres.
Mas os resultados também deixam claro que o benefício médio é modesto, que nem todas respondem e que os efeitos colaterais podem ser relevantes.
Isso não torna os medicamentos inúteis. Significa que eles precisam ser avaliados dentro de um contexto clínico, com expectativas realistas e atenção aos possíveis riscos.
E, principalmente, significa que a conversa sobre libido não deveria começar e terminar na procura por uma substância que aumente o desejo.
Antes de perguntar qual remédio pode ajudar, vale entender por que o desejo diminuiu, o que essa mudança representa para a mulher e quais abordagens fazem sentido para a situação dela.
Às vezes, um medicamento pode fazer parte da resposta. Em outras situações, o caminho pode envolver o tratamento de uma causa física, mudanças nas condições de vida, terapia sexual ou uma combinação dessas possibilidades.
O importante é não partir da ideia de que toda baixa libido precisa ser corrigida da mesma forma.
Se você quer entender o que está acontecendo com a sua libido e qual caminho seguir para melhorá-la, marque uma consulta de avaliação aqui
Com amor ❤️
Dani Fontinele
Referências:
Kamrul-Hasan ABM, Hannan MA, Alam MS, et al. Role of flibanserin in managing hypoactive sexual desire disorder in women: A systematic review and meta-analysis. Medicine (Baltimore). 2024;103(25).
Kingsberg SA, Clayton AH, Portman D, et al. Bremelanotide for the Treatment of Hypoactive Sexual Desire Disorder: Two Randomized Phase 3 Trials. Obstetrics & Gynecology. 2019;134(5):899–908.
U.S. Food and Drug Administration (FDA). Addyi (flibanserin): Prescribing Information. Revisão de dezembro de 2025.
U.S. Food and Drug Administration (FDA). Vyleesi (bremelanotide): Prescribing Information. 2020.
Clayton AH, Kingsberg SA, Portman D, et al. Safety Profile of Bremelanotide Across the Clinical Development Program. Journal of Women’s Health. 2022;31(2):171–182.
5th International Consultation on Sexual Medicine (ICSM). Recomendações sobre avaliação e tratamento das disfunções sexuais femininas. Sexual Medicine Reviews. 2026.
Toledo et al. Revisão sistemática e meta-análise sobre tratamentos para o transtorno do desejo sexual hipoativo feminino. Journal of Minimally Invasive Gynecology. 2026.
Ashour MA. Revisão sistemática de ensaios farmacológicos para o transtorno do desejo sexual hipoativo. Frontiers in Medicine. 2026.
Spielmans GI, Ellefson EM. Small Effects, Questionable Outcomes: Bremelanotide for Hypoactive Sexual Desire Disorder. The Journal of Sex Research. 2024;61(4):540–561.

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