Sim! Mulheres assistem pornografia!
Durante muito tempo, a discussão sobre pornografia foi construída principalmente a partir da experiência masculina. A própria literatura científica sobre o tema teve, por muitos anos, uma forte concentração em homens ou em amostras mistas, dificultando entender especificamente como as mulheres se relacionam com a pornografia.
Um estudo publicado em julho de 2026 decidiu olhar justamente para essa questão: por que mulheres usam pornografia, o que elas relatam sentir depois e como essas experiências se relacionam com a satisfação sexual?
O resultado é mais complexo do que simplesmente dizer que pornografia faz bem ou faz mal.
E talvez essa seja justamente a parte mais interessante.
Um estudo com 3.330 mulheres
A pesquisa foi realizada por pesquisadores ligados a instituições como a University of Southampton, Leeds Beckett University e o Kinsey Institute.
Os pesquisadores começaram com 5.079 participantes recrutadas entre fevereiro e abril de 2022.
Para participar, era necessário:
- identificar-se como mulher;
- ter 18 anos ou mais;
- ter usado pornografia pelo menos uma vez nos seis meses anteriores;
- saber ler e compreender inglês.
Depois da aplicação dos critérios e da exclusão de participantes que não se identificaram como mulheres, falharam no teste de atenção ou apresentaram excesso de dados ausentes, a amostra final ficou em 3.330 mulheres, entre 18 e 70 anos.
A idade média foi de 27,5 anos.
A maioria das participantes estava em países de língua inglesa: 48,3% moravam nos Estados Unidos, 12,1% no Reino Unido, 7,6% no Canadá e 3,2% na Austrália.
A amostra também era sexualmente diversa. 42,7% se identificaram como heterossexuais, 36,3% como bissexuais, 8,7% como pansexuais, 4,7% como queer e 4% como gays ou lésbicas, entre outras respostas.
Ou seja: não estamos falando de uma amostra exclusivamente heterossexual ou de mulheres universitárias.
Mas atenção: o estudo não perguntou quantas mulheres assistem pornografia
Esse é um detalhe metodológico importante.
Como uma das condições para participar era ter usado pornografia nos seis meses anteriores, todas as 3.330 participantes já tinham essa experiência.
Portanto, o estudo não consegue responder:
“Que porcentagem das mulheres assiste pornografia?”
Ele responde a outra pergunta:
“Entre mulheres que usaram pornografia recentemente, por que elas usam e o que relatam experimentar?”
Isso parece uma diferença pequena, mas muda completamente a interpretação dos dados.
Por que elas usam pornografia?
As participantes foram apresentadas a 18 possíveis motivos e deveriam indicar, em uma escala de 0 a 100, em que proporção das ocasiões de uso cada motivo esteve presente.
Isso significa que quando encontramos, por exemplo, o número 90,11 para masturbação, isso não significa que 90,11% das mulheres disseram usar pornografia para masturbação.
Significa que, em média, as participantes disseram que a masturbação estava presente em aproximadamente 90% das ocasiões em que usaram pornografia.
Essa distinção é fundamental.
Os principais resultados foram:
- 90% das ocasiões: para masturbação;
- 82%: para atingir o orgasmo;
- 75%: para aumentar a excitação sexual;
- 64%: como alternativa à fantasia;
- 46%: para relaxar;
- 45%: para melhorar experiências sexuais;
- 42%: para entretenimento;
- 38%: para se distrair das demandas do cotidiano;
- 34%: por tédio;
- 27%: por hábito;
- 20%: por curiosidade;
- 12%: para aprender algo sobre sexualidade;
- 9%: para iniciar conversas com parceiros;
- 9%: para se conectar com outra pessoa.
Portanto, as motivações sexuais apareceram com bastante força.
Mas elas não foram as únicas.
Três grandes grupos de motivação
Para entender melhor esse conjunto enorme de respostas, os pesquisadores agruparam as 18 motivações em três grandes dimensões.
1. Relaxar e se distrair
Esse grupo reuniu motivos como:
- tédio;
- procrastinação;
- distração das demandas do cotidiano;
- entretenimento;
- relaxamento;
- hábito.
2. Explorar a sexualidade
Esse grupo reuniu motivos relacionados a experimentar, expressar e explorar a própria sexualidade, aprender, sentir-se sexy, ter curiosidade, encontrar ideias e até iniciar conversas com parceiros.
3. Buscar excitação
O terceiro grupo concentrou motivos ligados à excitação física e psicológica, incluindo masturbação, orgasmo, aumento da excitação e utilização da pornografia como alternativa à fantasia.
E aqui está uma das descobertas mais interessantes
Os três motivos não apareceram associados aos mesmos resultados.
A motivação de explorar a sexualidade esteve associada a mais emoções positivas e maior satisfação sexual.
Já a motivação de buscar excitação apresentou um resultado mais curioso.
Ela esteve associada a mais emoções positivas, mas também a menor satisfação sexual.
Os próprios pesquisadores consideram esse achado surpreendente. Eles afirmam que novas pesquisas são necessárias para entender por que uma motivação sexual específica poderia estar associada simultaneamente a emoções positivas e a menor satisfação sexual.
Já o fator relaxar e se distrair apresentou o padrão mais claramente desfavorável: esteve associado a mais emoções negativas, menos emoções positivas e menor satisfação sexual.
Isso não significa que relaxar ou se distrair seja uma motivação “ruim”.
O que os dados mostram é que, quando esse conjunto de motivos era mais predominante, ele aparecia associado a determinados resultados.
E a frequência de uso?
Outra descoberta interessante foi que a frequência de uso também apresentou associações com satisfação sexual.
O uso mais frequente de pornografia, considerando tanto uso individual quanto com parceiro, apresentou uma associação positiva, porém muito fraca, com satisfação sexual:
Quando os pesquisadores separaram o contexto:
- maior frequência de uso individual esteve associada a menor satisfação sexual
- maior frequência de uso com parceiro esteve associada a maior satisfação sexual
Mas, novamente, isso é associação.
Não podemos dizer que assistir pornografia com parceiro cause maior satisfação sexual.
Pode acontecer exatamente o contrário: mulheres que já possuem uma vida sexual mais satisfatória podem ser mais propensas a incorporar pornografia à vida sexual do casal.
Os próprios autores destacam que a direção dessas relações não está clara.
E o que elas relatam sentir depois?
As participantes indicaram, novamente em uma escala de 0 a 100, em que proporção das ocasiões determinados resultados aconteciam.
O resultado mais frequente foi:
69% das ocasiões: a pornografia fazia a participante pensar que aquilo que era retratado era irrealista.
Depois:
38%: sentia-se sexualmente empoderada.
34%: sentia-se negativamente em relação à aparência do próprio corpo.
31%: sentia-se dessensibilizada.
30%: sentia que a pornografia havia proporcionado ideias para coisas sexuais que ainda não havia pensado.
29%: sentia-se positivamente em relação à aparência do próprio corpo.
21%: sentia-se mais relaxada em relação ao próprio corpo.
16%: relatava que a pornografia havia causado sofrimento.
13%: sentia menos desejo sexual pelo parceiro ou parceiros.
Mais uma vez, esses números representam a proporção média de ocasiões, e não a porcentagem de mulheres que tiveram cada experiência.
A pornografia foi percebida como irreal
Esse foi o resultado mais frequente de toda a lista.
E ele é particularmente interessante porque mostra que utilizar pornografia e acreditar que ela representa a realidade são coisas diferentes.
Os autores observam que muitas mulheres parecem consumir pornografia de maneira crítica, reconhecendo que a representação da sexualidade apresentada ali não corresponde necessariamente à realidade.
Isso importa porque a pornografia pode representar relações sexuais sem mostrar aspectos fundamentais da sexualidade real, como comunicação, negociação de preferências, consentimento e conexão emocional.
Portanto, uma mulher pode utilizar pornografia como estímulo e, ao mesmo tempo, compreender que aquilo que está vendo é uma representação.
E as emoções depois do uso?
Os pesquisadores também mediram especificamente emoções positivas e negativas.
O uso mais frequente de pornografia esteve associado a:
- mais emoções positivas
- menos emoções negativas
O contexto também fez diferença.
O uso com parceiro esteve associado a mais emoções positivas e menos emoções negativas. Já o uso individual apresentou um padrão mais associado a emoções negativas e menos positivas. Entretanto, os efeitos foram pequenos ou muito pequenos.
Então o estudo concluiu que pornografia faz bem?
Não.
E também não concluiu que faz mal.
Essa é uma das principais razões pelas quais vale a pena olhar o estudo original.
A pesquisa é transversal e correlacional. Ela mostra relações entre variáveis, mas não permite estabelecer causalidade.
Além disso, a amostra foi de mulheres que já haviam usado pornografia, foi formada por auto seleção e teve predominância de participantes de países de língua inglesa. O estudo também não coletou informações sobre quais tipos de pornografia as mulheres consumiam.
Portanto, não podemos usar esta pesquisa para afirmar que determinado tipo de conteúdo é melhor para mulheres, nem que pornografia produz necessariamente determinado efeito.
O que essa pesquisa acrescenta à terapia sexual?
Para mim, talvez essa seja a parte mais interessante.
Perguntar apenas:
“Você assiste pornografia?”
é uma pergunta muito limitada.
Pode ser mais útil investigar:
Por que você assiste?
O que você procura quando assiste?
Como você se sente depois?
Isso desperta curiosidade, prazer, desconforto ou culpa?
Isso faz parte da sexualidade que você gostaria de explorar ou está ocupando um espaço que você não gostaria que ocupasse?
Essas perguntas não colocam a pornografia automaticamente como vilã nem como solução.
Elas procuram compreender a função que determinado comportamento tem na vida sexual daquela mulher.
E essa talvez seja a principal mensagem que eu levaria desta pesquisa:
Não existe uma única experiência feminina com a pornografia.
Há mulheres que usam por razões predominantemente sexuais. Outras que usam para explorar a própria sexualidade. Há quem procure relaxamento ou distração. E as experiências relatadas depois também variam.
Por isso, a pergunta talvez não seja simplesmente:
“Pornografia faz bem ou faz mal?”
Uma pergunta mais interessante pode ser:
“O que você busca quando procura pornografia e como essa experiência se encaixa na sua sexualidade?”
É uma diferença pequena na formulação, mas enorme na maneira de compreender a sexualidade feminina.
Se pornografia, fantasia, desejo ou excitação despertam dúvidas, culpa ou conflitos na sua vida sexual, esse pode ser um tema importante para levar à terapia.
Se você gostaria de compreender melhor sua sexualidade e construir uma relação mais consciente com seus desejos, limites e possibilidades, a terapia sexual pode ser um espaço para isso. Agende sua consulta aqui
Com amor ❤️
Dani Fontinele
Referências
Litsou, K., Graham, C., Kelley, N., & Ingham, R. (2026). Motivations and outcomes of women’s pornography use. Porn Studies. Publicado online em 22 de julho de 2026. DOI: 10.1080/23268743.2026.2692429.
Bőthe, B., Vaillancourt-Morel, M.-P., & Bergeron, S. (2022). Estudo sobre uso de pornografia com parceiro e sofrimento sexual, citado pelos autores na revisão da literatura.
Grubbs, J. B., et al. (2019). Revisão sistemática de 130 estudos sobre uso de pornografia e motivação sexual, citada pelos autores como parte da literatura anterior.
Litsou, K., Graham, C., & Ingham, R. (2024). Estudo qualitativo que serviu de base para a construção das perguntas sobre motivações e resultados utilizadas na pesquisa de 2026.
Brouillard, P., Štulhofer, A., & Busko, V. (2020). New Sexual Satisfaction Scale (NSSS), instrumento utilizado para avaliar satisfação sexual no estudo.

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