Falar sobre abuso sexual infantil não é fácil, mas é a forma mais eficaz de proteger a sua criança.
Existem algumas conversas que ninguém quer ter com os filhos, principalmente quando eles ainda são bem novos — como morte na família ou tragédias mundiais. Mas, de longe, o abuso sexual ainda é um dos maiores tabus e medos na sociedade, sendo especialmente difícil falar sobre o assunto com crianças. Entretanto, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria1 e diversas pesquisas sobre o tema, o diálogo é a melhor maneira de prevenir violências e garantir que o seu filho tenha informação o suficiente para se manter seguro.
Os dados provam a importância de falarmos sobre isso: entre 2015 e 2021, foram notificados mais de 200 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil2. De acordo com o Fórum de Segurança, na maioria das vezes o criminoso é conhecido da vítima, correspondendo a 82,5% dos casos3, podendo ser pai, padrasto, irmãos, primos, entre outros.
O mesmo levantamento corrobora com a teoria de que o perigo pode estar mais perto do que parece: 76,5% dos estupros de crianças e adolescentes acontecem dentro da própria casa da vítima.
As informações não são para assustar pais e cuidadores, mas sim para que fique claro a necessidade de proteger o seu filho e saber quais são as melhores formas de se fazer isso. Para te ajudar nesta difícil missão, especialistas do BabyCenter explicam como conversar com a criança sobre abuso sexual infantil, de forma adequada.
Esteja atento aos sinais de abuso sexual infantil
Para além do diálogo em si, pais e responsáveis devem se atentar a mudanças de comportamento ou atitudes suspeitas de crianças, que podem indicar que são vítimas de abuso. Nem sempre estes sinais são claros e, por sentir culpa e medo, muitos preferem se fechar. Isso é uma verdade até para adultos que são vítimas de violência, seja física ou sexual, então, para crianças, a situação pode ser ainda mais delicada.
Portanto, é essencial compreender e se atentar aos principais sinais de abuso em crianças. Alguns deles são:
- Mudanças de comportamento bruscas;
- Comportamentos infantis, que já tinha “superado” — como chupar o dedo;
- Falas e “brincadeiras” de cunho sexual com maior frequência;
- Medo ou querer ficar mais com uma pessoa (até mesmo com o próprio agressor);
- Silêncio prolongado, não engaja nas conversas;
- Lesões e sangramentos na região íntima.
Se você identificar algum destes sinais, não quer dizer que seu filho esteja, necessariamente, passando por algo. Mas é um motivo para se atentar e observar com mais atenção seu comportamento, com quem ele convive e lugares que costuma frequentar.
Caso tenha dúvida de como agir, ou realmente suspeite de algum caso de abuso, procure ajuda. Você pode falar com o pediatra que á atende a família para pedir orientações ou ir à Delegacia da Criança e do Adolescente mais próxima.
A terapeuta Dani Fontinele, especialista na prevenção de abuso sexual infantil, também destaca: “Abuso sexual infantil não é só toque ou consumação de penetração. É mostrar ou pedir para mostrar as genitais, pedir para a criança fazer carinho em partes íntimas, mostrar pornografia ou falar de pornografia com a criança. Além disso, pedir para a criança fazer poses sugestivas e fotografar também é abuso. Infelizmente, a criatividade do abusador é grande”.
Por isso, psicólogos podem fazer toda a diferença nesta hora, até mesmo para entender o que, de fato, está acontecendo com a criança. De novo: às vezes, nem se trata de um caso de abuso, porém, é sempre importante averiguar.
Ensine sobre partes íntimas
De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, nunca é cedo demais para falar com a criança sobre abuso sexual. É claro que o tipo de conversa e nível de detalhes está diretamente ligado à faixa etária do seu filho. O objetivo aqui é informar, sem assustar.
E um dos tópicos mais importantes nesta conversa são as partes íntimas. Você pode explicar que elas recebem este nome justamente por serem privadas. Reforce que ninguém pode tocá-las sem autorização, incluindo os próprios cuidadores, que podem sempre pedir licença quando forem higienizar os filhos, seja durante o banho ou nas trocas de fraldas.
Para crianças mais novas, é possível falar sobre diferenças entre vaginas e pênis. Vale ressaltar que os seios, assim como coxas e regiões semelhantes, também são áreas íntimas. Uma dica é dar o nome adequado às regiões desde sempre.
Em determinada idade, é comum também que crianças comecem a encostar nos próprios órgãos genitais, seja por curiosidade ou por acharem a sensação gostosa. Você pode aproveitar esse gancho para explicar que, por ser uma “parte íntima”, não é interessante fazer isso em público. Tente não assustar, nem proibir as crianças de explorar o próprio corpo, explicando que, em alguns contextos, isso pode ser inadequado. Evite palavras negativas ou ameaças, como “sujo”, “feio” ou “errado”.
Incentive-a a impor limites
Ao explicar sobre as partes íntimas, reforce que ninguém deve encostar nelas. Por isso, mais uma vez, destaca-se a importância de pais e cuidadores mostrarem respeito e pedirem licença antes de ajudarem no banho ou na limpeza dos órgãos genitais. Diga para a criança que ela deve sempre expressar o que sente, sem medo de magoar o adulto. Ou seja: fale “não” quando se sentir desconfortável, mesmo que seja com um abraço de alguém próximo.
“Por isso é importante não obrigar a criança a beijar e abraçar todo mundo quando chega em um lugar com várias pessoas. Dessa forma, a criança não percebe que tem o direito de negar um carinho ou um toque. Acha que é falta de educação. A criança tem que saber que o corpo é dela e o consentimento também é dela”, explica a terapeuta.
Seja uma pessoa de confiança para a criança
Muitos abusadores se beneficiam da inocência das crianças, dizendo que os toques são apenas carinhos, feitos com boas intenções. Por isso, é importante explicar que, independente do adulto ou do tipo de toque, ela sempre deve expressar seu desconforto.
Mostre-se como uma figura acolhedora e garanta que, caso algo assim aconteça, ela pode e deve falar imediatamente para você ou para algum outro adulto de confiança. Deixe claro que não irá culpá-la por nada do tipo e irá amá-la incondicionalmente. Também deixe claro para a criança que o amor é para sempre, independente do que aconteça.
Além disso, explique que, se alguém pedir “segredo” ou falar que ela “não pode dizer algo para os pais”, é mais um sinal que ela deve se abrir para quem confia. Garanta que ela e os seus entes queridos vão estar protegidos, já que muitos criminosos ameaçam a criança ou até mesmo seus parentes próximos, para evitar conversas sobre o abuso.
Tire as dúvidas, de acordo com a idade da criança
É completamente esperado que crianças, de diferentes idades, tenham dúvidas sobre os seus corpos e sobre sexualidade, de maneira geral. Ao garantir um diálogo natural, sem culpa ou estigmas, os cuidadores ajudam a criança a ter uma visão mais simples do assunto, evitando traumas ou interpretações equivocadas, que podem aumentar as chances de abuso.
Especialistas reforçam a necessidade deste diálogo começar dentro da própria casa e indicam que os pais recebam as dúvidas e falas das crianças de maneira com que elas se sintam confortáveis, nunca envergonhadas.
A terapeuta Dani Fontinele ainda completa: “Sempre deve-se dizer a verdade. Nunca invente nada. Muitas vezes, a criança já tem a informação e pergunta apenas para confirmar. Se não souber a resposta, ou não souber como responder na hora, pode dizer que vai procurar a melhor maneira para responder. Então voltar mesmo com a resposta, em outro momento”.
Já é também consenso entre os pesquisadores que apenas uma conversa sobre sexo ou órgãos genitais não será suficiente. Com o passar do tempo, mais dúvidas podem surgir e estes debates podem aparecer frequentemente no dia a dia.
Entretanto, é, de fato, um assunto delicado e muitos cuidadores podem ter dúvidas do que explicar para a criança, já que alguns tópicos podem ser inadequados para a idade. Existem alguns assuntos mais comuns para cada faixa etária, como mostramos a seguir:
- Até 4 anos: explicar conceito de partes íntimas, diferenças de vaginas e pênis (já com os nomes corretos dos órgãos), encorajar a negar toques indesejados, explicações vagas sobre gravidez (os bebês vêm das barrigas das mães), além de conceitos básicos de consentimento.
- Até 7 anos: mudanças nos corpos com o crescimento, conceito de privacidade, explicação sobre masturbarção (de forma natural, sem culpabilizar a criança), explicações mais concretas sobre a gravidez (mencionando o papel do homem, mesmo que de forma vaga).
- Até 12 anos ou mais: para crianças mais velhas, você já pode falar com mais detalhes sobre sexo, com explicações mais profundas sobre reprodução humana. Neste momento, pode começar também a explicar sobre cuidados na prática, como contraceptivos e formas de evitar doenças.
A terapeuta também destaca a importância de falar sobre polução noturna e menstruação antes de acontecerem, de fato, para evitar sustos ou traumas. Nos meninos, a polução costuma acontecer a partir dos 12 anos e a menarca tende a acontecer com meninas de 9 a 12 anos. Mas, cada corpo é um corpo, então fique atento e sempre tenha um diálogo honesto com seu filho.
Dependendo da vivência e da maturidade de cada criança, as ordens podem mudar. Caso você tenha dúvidas de como responder a algum questionamento do seu filho, você pode consultar um psicólogo infantil, que ajudará na condução deste tipo de conversa. Além disso, livros, fábulas e histórias são artifícios bem-vindos que podem ajudar a passar a mensagem, de forma lúdica.
Fale sobre o abuso online
Com o crescimento da internet e a entrada cada vez mais precoce de crianças no universo online, é importante também falar do abuso que pode acontecer neste meio. Diversos abusadores, às vezes disfarçados de amigos na web, podem manipular crianças a fim de conseguir que elas interajam em atividades sexuais. A forma com que o abuso acontece no online é variada, indo de envio de fotos, transmissões ao vivo ou até mesmo troca de mensagens de texto de cunho sexual.
Cortar o acesso total à internet nem sempre é a forma mais eficaz de evitar o abuso, já que pode deixar a criança ressentida, afastando-a ainda mais dos cuidadores. Para isso, mais uma vez, a conversa é ponto chave. Fale sobre as ameaças do mundo virtual e peça para que sempre compartilhe com os pais, caso encontre algo que a deixe desconfortável. Para crianças mais novas, você pode limitar o uso da internet e bloquear determinados sites e aplicativos. Não deixe de se informar sobre novas tecnologias ou ferramentas que podem estar fazendo sucesso entre as crianças. Entender o dia a dia do seu filho é passo essencial para garantir a sua segurança.
“Como não conseguimos ter controle de todas as invenções para o mal — cada dia é uma novidade —, mesmo com todos os alertas e controles, o monitoramento é essencial. Ou seja, estar sempre de ouvido ligado, olhando e verificando o celular, tablet ou computador”, destaca Fontinele.
Números e organizações de apoio
Além de contar com apoio de médicos e psicólogos, existem diversos canais de denúncias e apoio para o abuso sexual infantil. Dentre eles estão:
- Delegacia da Criança ou do Adolescente.
- Conselho Tutelar: recebe denúncia e aplica medidas protetivas para crianças e adolescentes.
- Instituto Médico Legal: dá encaminhamento aos inquéritos de violência.
- Disque 100: recebe denúncias anônimas de violações de direitos humanos.
- Polícia Militar – 190: atende vítimas que estão em risco imediato.
- Samu – 192: responde a pedidos de socorro e resgate de vítimas.
- WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008.

Posts relacionados
3 tipos de sexo que tem que acontecer no relacionamento
Estes são os 3 tipos de sexo que tem que acontecer em relacionamentos longos Depois...
1 Comment
Como pedir consentimento na cama
Mesmo que não exista muita comunicação sobre sexo antes da relação, uma coisa que não...
Diferença de libido entre homem e mulher: o que é real e o que é percepção
A diferença de libido entre homem e mulher é um tema que gera muitas dúvidas...
Quer falar durante o sexo?
Assim como os gritos, gemidos e ruídos, tem gente que gosta e tem gente que...